Eu avisei
Eu avisei
Eu avisei que isto ia acontecer.
Pedi ajuda. Ergui a voz num apelo aflito.
Se outrora louvava a mudança… a ver bem, o que sempre detestei foi a rotina – essa quietude rígida onde nada nasce. É o oposto da mudança. Não suporto a rotina, não suporto a falta de espaço para espontaneidade. Para experiências. Para descobertas. Para aventuras.
Contudo,
a mudança na base. A alteração do que sustenta qualquer variância do nosso quotidiano. Essa! Essa não pode mudar, não. Esmaga. Mói. Amassa. Pisa. Aperta. Sufoca. Aniquila. Uma erosão lenta, que não advém de um dia para o outro. Não numa semana. Não num mês. As rochas não se desgastam após uma onda grande, mas pela persistência (inocente?) suave de gotas de água, constantes e isoladas.
Eu avisei.
Não me ouviram. Não acreditaram.
E agora ruí.
O meu cérebro culpa, incessantemente, os demais. Quem me rodeia. Aponta-lhes as ações, as palavras, os gestos. Mas, no fundo, ele tenta transferir o que sabe de si. Fui eu. Fui eu que me levei a esta posição. Fui eu quem tomou as decisões que não devia. Fui eu quem tomou as decisões erradas. Fui eu que abandonei a minha estabilidade pelo desconhecido. – na verdade, não era assim tão desconhecido quando me lancei. Descontrolou-se e eu perdi o controlo. E é justamente o controlo que me segura -ava.
Quando me arrancaram, violentamente, as bridas das minhas mãos, foi aí que caí. Estava de tal forma sustenta às cordas, que a brutal separação me projetou para trás.
Uma força magnética atraiu-me, como se um íman estivesse presente na minha lombar. A tração fez-me dobrar sobre mim, curvando-me em concha fechada até que os meus ossos, músculos e tecido adiposo assentaram no sofá. Assim fiquei, peito pressionado contra os joelhos, braços consolando as pernas, enquanto a tensão se redistribuía em equilíbrio estático.
Sinto-me esmagada pela minha própria queda.
Outra vez.
Agora podem concretizar todas as cordas necessárias, que eu não terei força, nem energia, para voltar a controlar.
Não posso voltar atrás. Não posso imutar. Não consigo ficar.


