Mesa
Se por vezes o horário das chegadas de comboio não coincidem – ou mesmo dificultam a chegada a eventos – naquele dia foi diferente. O casal vindo de mais longe chegava com uma pontualidade como já se tornara rara nos transportes ferroviários.
Apareceu o segundo casal.
Quero muito ver o resto da feira, mas agora preciso mesmo de ir fazer xixi.
Somos duas.
Conseguiram passar por todas as bancas sem se darem conta de que países pertenciam.
Muita conversa.
Apareceu o terceiro casal.
Mais diálogo.
Apareceu o quarto casal.
As palavras sucediam-se.
Não estava a ver que eras tu. Esse corte de cabelo fica-te realmente bem, e diferente.
Encontrei-vos porque vi a cabeça laranja.
Consegui perceber qual era a mesa porque esse metro e noventa se levantou.
A mesa.
Ninguém acreditaria que, com o calor que se fazia sentir no momento, chovera durante a noite e madrugada anteriores. Grande parte das mesas permanecia molhada. Ainda assim, lá conseguiram encontrar uma que não estivesse demasiado húmida, oferecesse lugar para todos e harmonizasse alguma sombra.
As vozes cruzavam-se.
O cheiro de especiarias misturava-se no ar, junto dos assuntos que surgiam sem esforço.
Olhares, risos e sorrisos sucediam-se aos milhos e carnes assadas.
Nem por um segundo houve silêncio naquela mesa. O holofote apontava, detinha-se, de rosto em rosto.
O esforço de uns para poderem estar ali. O contratempo com o carro no dia anterior. Os desabafos sobre os progenitores. As notícias.
Ai, as notícias!
Ao som de músicas de Natalia Lafourcade, vários temas rodavam pela mesa. A mesa, sempre ajustando os pratos apinhados de cores – tacos, empanadas, fumegantes, margaritas, cerveja, águas.
E lembranças.
E piadas. Muitas piadas.
A música tornou-se, de súbito, inaudível, embora a atuação ao vivo não tivesse terminado. Na mesa instalara-se um ritmo próprio.
Entre a partilha de batatas percebiam-se as partilhas do medo. O orgulho entre eles. O carinho de um novo futuro que aí vinha.
Existe aquela ideia cliché dos silêncios confortáveis. – não é mentira. Onde há cumplicidade, os silêncios não são constrangedores. Aqui, não obstante, nesta mesa, nunca há silêncio, nunca há espaço para o assunto extinguir. Poderíamos pensar que são pessoas que poupam os discursos por vias eletrônicas para depois os expender nestes momentos. – não é o caso. Estas pessoas falam muito. Mensagens, chamadas, pessoalmente. Pessoalmente sente-se todo o sentido.
A tarde avançava, a música baixou, a mesa continuava viva. O que permanecia era o fio invisível que os unia, firme, que fazia de cada instante uma certeza. E, mais uma vez, o tempo era só deles.


