Não voltámos sozinhos
O ano de 2026. Mal despontara. E quando digo “mal”, refiro-me a umas meras e breves horas. Tínhamos acabado de almoçar. Aproveitámos a pequena janela de sol para vaguear no parque.
Pode dizer-se que estava a começar bem. O ano.
Uma caminhada com aquele frio sem gelo e com o sol de inverno a refletir nas bochechas. Agradável para andar, em simultâneo com conversas sérias. Não sérias. Correr com os miúdos. Atirar pão aos patos. Fugir das poças de água. Equilibrar nas pontes sensíveis de madeira. Respirar o ar misto das árvores. Parar sem motivo, alterar a rota. Ajustar o cachecol. Enterrar as mãos nos bolsos enquanto as folhas secas, caídas dias antes, cedem sob os pés. Chamar as crianças. Ouvir o som dos sapatos ora nas estradas de areia, ora na terra batida. Procurar o lado do passadiço mais exposto ao sol. Ficar mais um bocado, parados, antes de decidir ir embora.
Caminhada terminada onde começámos: no restaurante. Mas um de nós ficou para trás.
“Não veem aquele cão ali?”
“Mas não fará parte do restaurante?”
“Parece um bocado perdido.”
“Vamos perguntar.”
O cão efetivamente não pertencia a nenhum membro de restaurante. Aparecera de madruga perto das instalações e o proprietário do estabelecimento acolheu-o naquele espaço em caso de alguém o revindicar como seu.
Neste momento só conseguíamos julgar o possível dono. Um cão de estatura pequena – estilo Cairn Terrier e Bichon Maltês – rafeiro, sujo, pelo com dreadlocks – a lembrar o Bob Marley – porém cinzentos e brancos. Pulgas a saltar entre os espaços capilares. Pele irritada na garupa.
Chamámos a PSP – nunca figuraram.
A primeira pessoa a preocupar-se com o animal dera-lhe comida, água e uma manta para se deitar naquele dia arrefecido.
Estava assustado. Talvez tenha fugido e se escondido dos diversos fogos de artifício da noite anterior. Talvez esteja na rua há muito tempo. Abandonado. Perdido. Ainda assim, não magro, esquelético ou esfomeado. Pelo estado dele, qualquer opção parecia provável. Porém, dócil, meigo e aceitando todas as carícias que lhe chegavam.
“Se ele não tiver dono, levo-o para casa.” – esta foi a frase-chave para todo o trabalho em equipa que decorreu de seguida.
Chamámos a GNR – apareceram minutos depois.
O cão não tinha chip – obrigatório por lei. Logo, assumiu-se como sem dono.
Primeiro passo: veterinário para avaliar o real estado do animal, antes de qualquer decisão.
Feriado. Sexta-feira. Clínicas fechadas. Chamadas. Telefonemas e mais telefonemas. Encontrámos. Alguém disposta a dirigir-se, de propósito, a uma clínica para ver o cão. – afinal era uma cadela.
Medo antes do diagnóstico. Alguns temores nas mamas. Costelas fraturadas, talvez de um atropelamento. Pele picada e uma pelada das pulgas. Rabo cortado – sabe-se lá bem porquê. Cerca de nove anos de idade. Olhar triste. Sem saber ainda que os seus melhores dias – quiçá últimos – iniciavam ali.
Vieram as instruções e cuidados após um regate.
Lista de tratamentos, exames e indicações a fazer nos próximos dias. Banho e tosquia dois dias depois. Primeiro estabilizar, observar, dar segurança. Analgésico para aliviar dores. Ecografias marcadas. Desparasitação faseada. Alimentação leve e em pequenas doses. Espaço tranquilo. Tempo. Paciência. Rotina. E confiança construída devagar.
Manta improvisada, transportadora nova, mudou-se para Aveiro para ter os melhores meses – quem sabe anos – da sua vida.


