Querido ChatGPT, Gemini, Copilot ou como raio te querias chamar,
Nunca fui tua inimiga. Pelo contrário, sempre te reconheci utilidade como um instrumento de auxílio. Ajudas-me a poupar tempo nas pesquisas, a compreender certos detalhes técnicos em áreas que não domino. E, convenhamos, na escrita essa assistência até pode ser preciosa (a meu ver). Tento abordar realidades, situações quotidianas verosímeis, hábitos mundanos com rigor, sem sacrificar factos – porque para desinformação já chega o que circula, com propósito, por aí.
Sucede, porém, e inevitavelmente, que tudo aquilo que nasce com objetivos nobres acaba por se desviar para regiões menos edificantes. E tu és um excelente exemplo disso. E confesso que começaste a enervar-me quando notei que te expressas muito com os tais travessões. Desculpa, mas o travessão é uma ferramenta que utilizo com critério e vaidade. É estético. Confere destaque, quase como se fosse uma interrupção intencional para chamar a atenção. Dá nas vistas, é um símbolo que sabe o que quer, transmite o seu próprio ritmo e pode transmitir um tom mais informal ou próximo da oralidade. Além disso, são úteis para dar dramaticidade ou reforçar uma ideia sem quebrar totalmente a estrutura da frase. Enquanto as vírgulas sugerem uma continuidade suave, podem engasgar a leitura; e os parênteses são um símbolo feio, indicam algo secundário ou explicativo (e explicar a piada perde a piada).
E eis o dilema: receio que os leitores e leitoras pensem que recorri a ti para escrever o que escrevo. Ainda que te use em tarefas auxiliares, para escrever propriamente dito, não. Aí tu falhas. És de uma péssima qualidade. Se eu te pedir um texto, enches as linhas de padrões literários previsíveis e frases, que, embora impecáveis, são cansadas. E destes escritores mecanizados já temos muitos, a sobreviver e com sucesso.
Ademais, estás a complicar-nos a vida. Não basta só escrever, agora ainda temos de nos reinventar, tentar descobrir formas únicas com a nossa marca. É chato. Não era essa a ideia. Principalmente para os escritores iniciantes, mal começam a descobrir o próprio estilo, já têm de competir com um coro de máquinas armadas em eloquentes, como se anos largos de literatura boa não fossem suficientes.
No entanto, se tivermos paciência e te instruirmos com “fala assim”, “não uses aquilo”, “imita o estilo de fulano”, “muda a expressão para mais calmo”, “para mais erudito”, provavelmente até chegas lá. Mas pergunto-me: se tenho de ter o trabalho de pensar no que te dizer, no que te perguntar, como te orientar e explicar o que eu pretendo, não será mais sensato, fácil (que sou uma pessoa preguiçosa) e rápido escrever logo o que quero e como quero, por mim própria? Se o público pensará que foi escrito com inteligência artificial, repousará na consciência de cada autor e na capacidade de crítica e astúcia dos leitores.
Agora tenho de terminar o texto porque preciso de ir passar a ferro. Tarefa que me dava jeito a tua colaboração, contudo, a tua proclamada inteligência não se ergue.


